Nem os anéis nem os dedos!

A integridade do solo e a sanidade do povo português valem, de longe, mais que os milhões de investimentos malévolos.

Comecemos por uma breve resenha histórica, em ziguezague, a propósito a exploração de lítio em Portugal. Em dezembro de 2016, o governo resolveu criar o Grupo de Trabalho do Lítio para, até 31 de março de 2017, "identificar e caracterizar" a existência deste mineral no território nacional e elencar "as atividades económicas associadas à sua revelação e aproveitamento". A semana passada saltaram para as páginas dos jornais notícias dando conta da crescente procura de autorizações de prospeção de lítio. Ainda, que podem estar em jogo "propostas de 3,8 milhões de euros de investimento para 2500 quilómetros quadrados", segundo dados que constarão do relatório técnico do tal grupo de trabalho. E também que as principais ocorrências do mineral estão nas regiões Norte e Centro, sendo mesmo identificados os melhores locais de exploração. Pelo meio ficámos a saber que a empresa australiana Dakota Minerals - que quer mudar o nome para Novo Lítio, Ltd. - está já a operar em Trás-os-Montes, algures em Montalegre, e que pretende expandir o negócio.

Igualmente em solo transmontano, a britânica Savannah Resources tem importantes projetos de mineração. Donde, as multinacionais mineiras descobriram o Barroso como um filão a explorar. Isto a norte, porque no centro nem tudo tem corrido de feição aos investidores no que toca à mineração de lítio. Sabe-se que a pretendida exploração na serra da Argemela - no caso vertente, a portuguesa PANNN -, abrangendo territórios da Covilhã e do Fundão, distrito de Castelo Branco, tem encontrado séria resistência de ambientalistas e populações locais.

Para compor o ramalhete temos um alegado namoro à Tesla Motors, fabricante norte- -americana de carros elétricos que tem em vista a instalação na Europa de uma megafábrica, igualmente cobiçada por Espanha, França e Holanda. É ver quem dá mais, e Portugal tem a vantagem de ter reservas de lítio, componente indispensável, no atual estado de arte, à produção das necessárias baterias. Razão por que já se fala na corrida ao "petróleo branco" ... ultrapassada a corrida ao "ouro preto". Com benefício de quem?

Ora, quando se fala de investimentos, surgem logo os anúncios dos milhões e dos postos de trabalho que lhes estarão associados. E Portugal precisa disso como de pão para a boca. Mas... há aqui um mas insofismável: qual o preço a pagar? Desenvolvimento da indústria extrativa, aproveitamento dos recursos endógenos é indubitavelmente incremento da economia nacional. E porventura até com alto valor acrescentado se - eis o busílis - a riqueza resultante não for exportada: deixar as mais- -valias nas mãos do capital estrangeiro e contentarmo-nos com as migalhas sobrantes. Mais: vendermos a terra a quem no-la vai esventrar, escorropichar e abandonar depois de exaurida.

Estamos em crer que o governo português está bem ciente destes riscos, e doutros que ignoramos, e agirá em conformidade. Investimento precisa-se, porém há limites que não podem ser ultrapassados: a integridade do solo e a sanidade do povo português valem, de longe, mais que os milhões de investimentos malévolos. Que não tentem levar- -nos os anéis e roer-nos os dedos. Portugal só é coutada dos portugueses.


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